JORNAL DA PAISAGEM
A PAISAGEM CULTURAL DE PARATY
A visão holística que caracteriza este novo milênio já vem, há tempos, predominando sobre formas muito especializadas de percepção do patrimônio. Meio urbano e meio rural, natureza e cultura, patrimônio material e patrimônio imaterial, passado e presente, presente e futuro. Conceitos aparentemente opostos mas, todavia, perfeitamente capazes de se integrarem e
de comporem sistemas muito mais amplos, complexos e significativos. A proposta de inclusão
de Paraty na Lista do Patrimônio Mundial - com o título "O Caminho do Ouro e sua Paisagem” sugeriu que a indicação não contemplasse apenas valores culturais e naturais mas que buscasse integrar àquela paisagem natural, as singulares características da paisagem urbana e os
peculiares modos de vida. A proposta inclui, de forma vanguardista, a preocupação com
o patrimônio imaterial.
Paraty encontra-se num cenário ímpar, sua paisagem é de beleza sem igual no planeta. A baía é dominada por gigantescas formações montanhosas, todas elas revestidas pela exuberância da floresta tropical atlântica, derramando-se sobre o mar em costões abruptos ou suaves encostas
e desaguando em praias recortadas ou manguezais onde pulula grande parte da vida marinha.
O valor planetário das florestas tropicais úmidas está expresso na biodiversidade vegetal e animal; nas inúmeras espécies vegetais e animais endêmicas, espécies raras, vulneráveis ou ameaçadas; nos elementos vegetais de valor evolucionário relativos a diferentes estágios da história da evolução da terra. A Serra do Mar, testemunho geológico e geomorfológico da história do planeta destaca-se nesta região por sua beleza paisagística. As culturas nativas vivas que ali se abrigam, mantêm formas próprias e tradicionais de relação com a floresta e o mar, em Paraty, esses valores assumem dimensões infinitamente eloqüentes.
Valores históricos e culturais como o "Caminho do Ouro", atestam a maneira como se processaram as rotas e caminhos da colonização do território brasileiro. Dentre os animais que resistiram à última glaciação, na região costeira situada a leste da América do Sul, recoberta pela Mata Atlântica, a anta ou tapir (Tapirus terrestris), o maior mamífero terrestre sul-americano é
o único animal de grande porte que conseguiu sobreviver na Mata Atlântica. Graças à sua força extraordinária, mesmo na floresta mais densa consegue abrir picadas que os índios guaranis chamam de mborepirape - mesma designação que dão à Via Láctea por se esta faixa luminosa mais importante que se vê da abóbada celeste pelas veredas que criam na vegetação. Desde a Pré-História, os índios do sudeste brasileiro se utilizaram dessas trilhas, nos deslocamentos entre o litoral e o planalto. E uma delas, que subia a serra da Bocaina, era utilizada pelos índios guaianás, antigos habitantes da região de Paraty, para ir da aldeia de baixo, Paratyi, à aldeia de cima, Taba-e-tê. Assim, quando os portugueses chegaram à América, encontraram uma vasta malha de caminhos para chegar ao interior, na missão prioritária da colonização, que era a busca de metais e pedras preciosas. Durante o período do Descobrimento foi o primeiro caminho a
ligar o litoral às minas de ouro, foi um ponto de partida para o avanço da cultura européia rumo ao interior do Brasil. Preserva o calçamento em pedras, por onde circularam as riquezas
materiais e imateriais, os arrimos, as pontes e os elementos do sistema de defesa e de controle
do ouro, como os remanescentes das ruínas da Casa do Regimento e das duas Casas de Registro, conhecidas como Casas do Quinto, testemunhando a importância deste caminho
para a Corte Portuguesa.
É marcante no sítio histórico o porto do ouro, a harmonia e integridade do conjunto arquitetônico, caracterizado por sua elevada coerência formal. A densidade das construções proporciona uma extraordinária impressão de monumentalidade. Esse conjunto é homogêneo inclusive nos materiais e técnicas utilizadas. O espaço edificado conjuga a casa térrea e o sobrado, com um grande número de armazéns, edificações correntes nas cidades empório comercial. Alguns sobrados do século XIX destacam-se pela inserção de pormenores arquitetônicos notáveis, como os trabalhos de madeira e ferro forjado, os frisos e pilastras ornamentados. Embora de proporções diminutas em relação ao esplêndido cenário natural, de tal forma se impõe que parece existir apenas para emoldurá-Io. O traçado urbano guarda marcas de etapas e estratégias adotadas pelos portugueses na implantação das cidades marítimas atlânticas durante a expansão ultramarina, articulando-se ao território de forma única. Em Paraty ainda se preserva o calçamento em pedras, bem como o sistema de drenagem dos arruamentos, tal como foi projetado, o que hoje é raro de se ver. Paraty é tão íntima do mar que se poderia dizer uma cidade anfíbia na qual a linguagem urbana se articula com naturalidade à paisagem. As águas, conduzidas pela lua, não são barradas mas avançam cidade adentro, ao ritmo largo e alternado da maré.
No alto da colina o Forte Defensor Perpétuo, remanescente do sistema de fortificação da baía, mantém integro seus principais elementos de defesa e permanece guardando a cidade.
Modos de vida diversificados e preservados infundem experiências de varias etnias e diferentes grupos formadores de nossa sociedade. Paraty mantém intactas as tradições de suas celebrações religiosas, que se estendem pelas ruas, ligando as igrejas e oratórios durante todo ano desde o período colonial. Ali se comemora a Festa do Divino, a Procissão do Fogaréu, a Folia dos Reis, a Procissão dos Passos da Paixão, as Ladainhas de São João e Santa Cruz, além de outras festividades de cunho profano e popular como as cirandas. O mais importante é que tais celebrações se preservaram não apenas na zona urbana como também na rural, o que as distingue da maior parte de exemplos brasileiros. Também se preservaram vivas manifestações folclóricas e populares como músicas, danças, artesanato e culinária.
Etnias bastantes peculiares convivem nessa região paradisíaca, com os privilegiados recursos da paisagem. Os caiçaras diferem de quaisquer outros grupos pescadores. Alternam o convívio do mar com o convívio da terra, a prática de atividades de pesca com o plantio de roças. São um povo cuja vida se processa em áreas úmidas, indissociavelmente ligado ao ecossistema estuarino de Paraty, ambiente rico em mangues, restingas, florestas, vales e montanhas.
Nesse meio de tão diversificais panoramas, onde também a vida apresenta uma infinita diversidade, há incontáveis formas de uso dos recursos. A atividade da pesca utiliza-se de técnicas artesanais próprias para a captura dos peixes, como os cercados e covos, atividade que não existiria sem o apoio material da engenharia náutica. A diversidade de formas das embarcações típicas de Paraty já constitui outro acervo de bens culturais.
Paraty exibe importante intercâmbio de valores humanos presentes há quase três séculos, em um mundo em desenvolvimento que detém testemunhos únicos de tradições culturais vivas ou já desaparecidas. É também excepcional exemplo de paisagem que inclui um conjunto arquitetônico peculiar, que reflete uma população cuja vida e cultura são direta e tangencialmente associadas a tradições vivas, decorrentes, desde os primórdios de surgimento, de fervorosas crenças religiosas que, por si só, constituem excepcional patrimônio imaterial da humanidade. Diferindo de outras cidades históricas descaracterizadas pelo turismo, Paraty não é apenas espaço físico, é repositório de modos de vida, testemunhos da peculiar cultura local que preserva, de forma
única, viva e integrada, a cidade, suas edificações, sua identidade, seus recursos naturais,
técnicas, práticas e o conhecimento cultural do mar, do mangue, das montanhas e da floresta tropical úmida.
Paraty, um conjunto edificado que não pode ser considerado destacada mente de seu contexto ambiental, mantém relações múltiplas, íntimas e recíprocas com o ambiente da selva, que não foi ainda objeto de inclusão em nenhuma lista mundial de bens culturais; reúne comunidades que detém conhecimentos etnobiológicos tradicionais sobre recursos naturais, de inestimável valor e potencial para a ciência e economia; apresenta modos de vida, de habilidades, de conhecimento, de subsistência, de evolução tecnológica e usos peculiares de recursos naturais indissociavelmente relacionados ao meio físico e não físico; graças à tradição ameríndia, européia e africana, ali se gerou a produção de uma diversificada paisagem na qual o conjunto arquitetônico reflete diferentes influências tanto eruditas quanto vernaculares; sua evolução cultural se deu sob o ponto de vista da relação geográfica, geografia física e humana. O espaço, o sol, o clima, os ares, as águas, o solo a flora e a fauna, estabeleceram uma cumplicidade entre os elementos que caracterizam Paraty e que a tornam uma cidade única e singular em seu meio urbano e meio rural, graças à existência de diversificadas formas de culturas. Paraty distingue-se de outros locais pelos históricos movimentos humanos, pelo constante ir e vir entre a floresta, o mar e a cidade, pelos caminhos de pedra; sua pluralidade etnológica, em diferentes e constantes interações, caracteriza os estabelecimentos humanos e finda por abordar a força criativa da espiritualidade das festas religiosas, em um exemplo de modelo sustentável urbano integrado ao meio natural.
Arquiteta Isabelle Cury
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN |